Estou escrevendo como quem o faz pela última vez...
Como alguém que tem no peito a marca extremamente dolorosa da vida sem sentido, fútil...
Como alguém que sempre teve algo para dizer, mas que, na verdade, nunca disse, pois tudo o que lhe saiu pela boca, ou pelas mãos, não foi compreendido.
Sinto-me como um paradigma que não foi quebrado e continua insistindo em mostrar seu valor.
Pra que servem os pensamentos senão para serem expressos, difundidos, proclamados?
Mas, a partir daí, quando você, de fato, os expressa, está correndo o risco de ser contrariado, confundido, mal interpretado e até mesmo despercebido.
Quando seus pensamentos te levam a um lugar onde ninguém jamais foi, ou que você nunca tenha compartilhado...
...sinal de solidão!
A solidão é ambígua.
Pode te permitir desfrutar de momentos enriquecedores, inspiradores, acalentadores. Ou pode te levar à beira de um abismo sem fim, onde não se enxerga o chão, onde as paredes são de vidro, pelas quais você vê e é visto, mas não é
tocado, sentido, afagado, libertado.
'Faço versos como quem chora", dizia o poeta, num instante de desencanto como o meu...
Choro, agora, como quem faz versos desencantados.
Meu coração, que é salvo pela Graça, disfarça pra não mostrar o quanto ainda reflete sua desgraça...
Despeja, gota a gota, de sua incrível sala de desalentos, toda a dor , todo rancor, todo furor...
Onde está o amor?
Por que não é despejado, esbanjado, compartilhado, ou apenas gotejado?
Se apenas uma gota de sua potencial força basta pra arrastar multidões de pecados desenfreados...
Por que não expressamos, difundimos, proclamamos o amor?
O amor não é apenas para ser sentido, nem trocado.
Não é moeda de compra e venda, às vezes em alta, outras em baixa. Hoje vale tanto, amanhã mais, ou menos.
É algo incomparável, inconfundível, intransponível, intransferível, imutável...
Único!
É a medicação que não vicia, mas sacia, cura.
Deveríamos oferecer de graça, uma vez que o recebemos assim.
Apenas por falar nele, meu coração, aquele salvo pela Graça, não disfarça mais a sensação de algo querendo entrar para acalentar, saciar, curar.
Vejo-me segura por uma tênue e reluzente linha de esperança, que me alcança e me faz voltar a compreender o antes incompreensível mundo...
Volto a fazer versos, agora sem choro, como quem espera.
Apenas...



ainda estou na fase do banquinho. "Apenas",,,
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